segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Poema borrado

De Cecílio Purcino

Hoje chorei!
Chorei feito menino carente,
Sem papel noel e sem presente.
Sentei no banco da praça de Lisboa
E chorei!
Chorei; chorei; chorei
Chorei, Mas chorei
Tanto,tanto, tanto,
Que as lágrimas acabaram
Manchando as letras desse poema.

Agora! terei que fazer outro.

Dias normais

de Cecílio Purcino

Me lembro de ter passado
Por essa rua esses dias.
Tudo estava como esta agora,
Calmo como uma lembrança.

As pessoas nas ruas,
Crianças correndo,
E os idosos a reclamar
Do irreclamável.

Nos bancos,
Beijos soltavam seus estalos,
Nos gramados,
O violão acompanhava os jovens.

Éh! pelo que vejo, aqui em Portugal
todo dia é assim:
Tudo muito tranquilo e sereno.
Menos o meu coração abrazado
pela saudade dos ares
que no Brasil deixei.

Arrebenta pulmão de carne osso
Que não quer parar de respirar.

A ação do verbo

de Cecílio Purcino

Ontem passei por essa praça
e estava sem palavras na boca,
nos olhos e nos ouvidos.
Apenas na ponta da pena e
no verso do papel.

Hoje, elas saltaram dos olhos,
Passaram pelos ouvidos
E sairam pela boca.

Era a vontade de verbalizar a ação:
Te quero, Te quero, Te quero

A distração da noite

de Cecílio Purcino

A bola quica, quica a bola
E a bola quica.
E sem perceber , ela passa
Pra lá e pra cá a quatro pés,
E ao longe,junto a bola
Meu olhar compenetrado,
Lá no fundo no horizonte escuro
Da praça,percebe apenas isto.

Três rapazes, um é o bobo,
E no chão, a bola que quica,
Rola e quica, por debaixo dos
Olhos do mundo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Morte em vida

de Cecílio Purcino

Há tempos atrás eu era doente e não me sabia,
Era meu coração que tinha pouca alegria.
Os ossos? Esses já não me cabiam,
Já não resistiam nem mesmo aos cálcios que lhes faltavam.
O fígado? Já não era mais como Prometeu.
O pâncreas? Estava completamente básico,
Os pulmões não tinham mais por quem respirar
E o cérebro já não tinha nem mais uma lembrança sequer.
Tudo já estava em plena morte.

Primeiro, veio o cansaço dessa vida cotidiana,
Depois o êxtase imprevisível do prazer e das loucuras
E depois a falta de ar nos pulmões
E o horror de não poder mais respirar.
Essa era a parte que mais me doía,
Não ter por quem respirar.

Sem ti? Nada senti.
Nem percebi quando os órgãos
Pararam de funcionar
E o coração virou pedra,
Barro ou cinza talvez,
E parou de bater.
Fiquei morto em vida,
Zumbi.

Ia aos bares para viver e mais nada.
E levava para casa o pouco ar que sobrava,
Preso no cérebro e nos brônquios.
E com isso, tentava eu ser feliz,
Mas o coração, esse me faltava.

Há muito tempo atrás eu fora doente e não me sabia.
Não sei se era câncer, tuberculose ou rinite, não sei,
Mas há muito tempo fiquei doente e não sabia.
Os sintomas me davam agonia.
Era falta de ar e dores nas costas
De levar meu passado amarrado nos pulsos.
Eram dores nas pernas de carregar meus despojos
E febre alta para com os corpos alheios.

E essas únicas lembranças eram
O único ar que me sobrava,
Como fumaça saindo do tabaco,
E pondo manchas na parede.

Mas hoje, algo me faz bem
E me sinto melhor,
Veio como morfina na veia
E calcificante nos ossos,
Amoleceu meu coração outra vez
E o deixou virar um só diamante.
Fez com que meus pulmões tivessem
O ar necessário para que eu voltasse a
Respirar tranqüilo e em silêncio,
Como criança dormindo ao fim da tarde

Meus órgãos voltaram a trabalhar
E o meu cérebro a fixar as lembranças,
E tais lembranças que para mim é tudo.
Hoje, eu as vivo com uma nitidez que serra os meus olhos,
Eu as vejo com o coração e as respiro com o peito,
Para que eu não esqueça os
Momentos em que vivemos juntos.

E depois de ter passado tanto tempo doente,
Parado, estático nessa minha
Cotidiana vida de aventureiro,
Sei o quanto é bom ter você
A passar pelos pulmões,
Percorrendo o miocárdio
E parando no hipocampo de
Minhas memórias.

E esse ar de que tanto falo e respiro,
São as minhas lembranças que tenho por ti,
Latejando nas minhas têmporas.

Esse ar veio do Sul e ao mesmo tempo em
Que me sinto aquecido por ele,
Me fazendo dormir em teus braços,
Ele me parece frio e racional.
E talvez por eu ter ficado tão doente
Há tanto tempo, essa foi a virtude
Que devo já ter me esquecido.

Já não me cabe mais a razão no corpo nem na alma,
Já não me cabe a razão nas palavras,
Já não me cabe a razão em mais ninguém
E mais nada,
Apenas vivo,
O mais intensamente,
O mais fervoroso possível,
Tentando fazer com que todo esse frio ar
Me aqueça os pulmões e
Me faça esquecer que um dia
Eu quase morrera.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Olhar frio

de Cecílio Purcino

Hoje pela manhã,
Ao acordar,
Pensei em você.

Pensei em você como a um jardim,
Com flores de todos os tons a embelezar o solo,
Tal solo vermelho e fértil como os meus pensamentos,
Com um gramado todo brando e suave,
E com rosas vermelhas em volta,
Distribuídas pelos canteiros pérfidos e nulos,
A seduzir os olhos palpitantes e as mentes caiadas.

Hoje pensei em você!
E pesei em você, com um sorriso crepuscular,
Como sempre foi e sempre será,
E com os olhos a olhar na direção do horizonte
Com as mãos na cabeça a se
Preocupar com o entardecer da idade,
E a pensar sobre a vida, no passado, no futuro,
E no presente que somos um para o outro.

E pensei em você logo hoje pela manhã,
Da mesma maneira que se pensa em um céu estralado,
Cheio de estrelas e nebulosas a ladrilhar um caminho
Ou a um sorriso talvez,
Ou a um guerreiro na lua, a acompanhá-la na
Interminável disputa com o sol
Pelas manhas extasiadas.

Eu pensei em você...

E agora, ao fim da tarde
Depois de ter te encontrado
No horário combinado,
E que ficou em mim marcado,
Voltei a pensar em você.

E dessa vez,
Não como o resplandecer do sol a pegar-se nas têmporas
Ou nos braços, nas pernas e nos corpos tramados
Aquecendo os nossos corações,
Mas com um olhar frio e cinzento
Vindo de uma enorme frigidez
A tocar minhas mãos.

E por termos um dia as entrelaçado,
Mesmo que tenha sido apenas por um momento sequer,
Entre os cumprimentos e as saudações,
É a razão pela qual contive minhas lágrimas.

E mesmo assim, ainda não sabendo
O porquê de tudo,
Penso no que poderia ter sido,
E entendo que talvez,
Os meus maiores segredos
Tenham destruído a nossa melhor relação,
Aquela de nos olharmos e sorrir.

Dentro do meu coração arrumo os meus destroços,
Eu choro, sobre a sua imagem que brota e me consome.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Flores, cravos, rosas e espinhos

de Cecílio Purcino

Nem tudo são rosas em meu jardim,
Sempre há alguns cravos esquecidos pelo campo
Quando estou apenas a conversar de flores.
E só os percebo, quando entro no gramado
E passo as mãos pelas ervas
E me firo com os corpos que
Entram na palma da minha vida
E vejo o tamanho dos espinhos
Que há dentro da beleza.

É nesse momento que as flores
Murcham e perdem sua inocência,
Assim como eu, refletindo o tempo perdido
Ao longo da forte chuva que deságua em meu coração.